Depois de 20 edições, eu consigo te dizer exatamente o que faz um trabalho se destacar na mesa do júri do Prêmio Capixaba de Jornalismo. Não é marketing, não é aquele texto bonito cheio de adjetivos. É outra coisa. E eu vou te contar sem enrolação.
Quando a gente senta para julgar, o primeiro filtro é brutal: a reportagem precisa ter algo que a gente nunca viu antes. Pode até tratar de um tema conhecido, mas se ela trouxer um ângulo novo, uma fonte que ninguém ouviu, um dado que muda a conversa, aí o trabalho ganha vida. Eu sempre comparo com cozinha: todo mundo faz feijão, mas o tempero e o ponto decidem quem leva o elogio.
Originalidade não é invenção

Muita gente confunde originalidade com fazer algo nunca feito. Não é isso. É olhar para o óbvio e enxergar o que os outros não enxergaram. Uma reportagem sobre o café conilon pode virar ouro se ela mostrar o impacto da seca de 2016 no interior do Espírito Santo de um jeito que conecte o produtor ao consumidor final de forma humana.
Eu me lembro de matérias que venceram não por serem sobre temas grandiosos, mas por terem encontrado uma história pequena que representava um problema grande. Isso vale mais do que dez reportagens genéricas sobre corrupção, por exemplo.
O que o júri realmente lê com atenção
Quando avaliamos os trabalhos, procuramos três camadas:
- A precisão cirúrgica dos fatos
- A capacidade de contar uma história
- O impacto real daquela reportagem na sociedade capixaba
A precisão é inegociável. Um erro de data, um nome errado, uma informação fora de contexto e o trabalho já perde pontos pesados. Eu costumo dizer que jornalismo bom tem que aguentar uma investigação. Se eu consigo furar sua reportagem com duas ligações, ela não está pronta para o prêmio.
A diferença entre "quase bom" e "premiado"

O que separa o segundo lugar do vencedor geralmente está na narrativa. Não adianta ter todos os fatos se você não consegue fazer o leitor se importar. Eu sempre falo que boa reportagem faz o leitor sentir raiva, compaixão ou surpresa. Se a pessoa termina de ler e continua pensando no assunto depois, você acertou em cheio.
Outra coisa que eu valorizo demais é quando o jornalista se arrisca. Não falo de risco físico, mas de sair da zona de conforto. Ir para o interior, ficar três dias acompanhando uma família, gravar áudio de qualidade ruim mas com depoimentos verdadeiros. Isso aparece no texto.
O que está escrito no regulamento (e que muita gente ignora)
Antes de enviar qualquer coisa, leia com atenção o regulamento completo. Parece conselho de tia, mas é sério. Muitos trabalhos bons ficam de fora por questões técnicas que poderiam ter sido evitadas.
Depois de acompanhar 20 anos de Prêmio Capixaba de Jornalismo, eu vejo os mesmos erros se repetindo. Reportagens que claramente foram feitas para outra categoria, trabalhos com mais de um autor quando a categoria é individual, arquivos que não abrem. São coisas básicas que custam caro.
Como o júri de 2013 me ensinou a avaliar
Eu me pego pensando muito no júri de 2013. Aquele ano foi especial. Tínhamos profissionais extremamente exigentes e, justamente por isso, as discussões eram ricas. Aprendi que o que realmente importa não é o que eu gosto pessoalmente, mas o que tem valor jornalístico real.
Foi naquele júri que entendi que uma boa reportagem precisa responder três perguntas simples:
- Isso precisava ser contado?
- Foi contado da melhor forma possível?
- Esse trabalho faz diferença para o Espírito Santo?
Elementos que sempre chamam atenção

Quando uma reportagem tem fontes diversificadas, dados atualizados, contexto histórico e uma escrita fluida, ela naturalmente se destaca. Eu gosto quando o jornalista consegue explicar coisas complexas de forma simples, sem ser simplório.
Outra coisa que me pega é a ética. Reportagens que respeitam o direito de resposta, que protegem fontes vulneráveis, que não sensacionalizam sofrimento alheio. Isso não está escrito em lugar nenhum, mas a gente sente quando está presente.
Eu particularmente valorizo quando o jornalista mostra trabalho de campo. Não aquela reportagem feita só de releases e notas oficiais. Quero ver suor, quero ver que o repórter esteve lá, conversou, observou, viveu o assunto.
O que eu recomendaria para quem quer concorrer

Se você está pensando em inscrever uma matéria, faça este exercício: imagine que você tem que defender seu trabalho na frente de cinco jornalistas duríssimos. Quais seriam os pontos fracos? Ataque esses pontos antes.
Revise três vezes. Leia em voz alta. Peça para alguém que não entende do assunto ler e te contar o que entendeu. Se a pessoa conseguir explicar o que você quis dizer, você está no caminho certo.
E lembre: o júri não é seu inimigo. A gente quer encontrar bons trabalhos. A gente torce para se surpreender. Quando uma reportagem realmente boa aparece, a discussão nem dura tanto. Ela se impõe sozinha.
Depois de duas décadas vendo de perto, posso te garantir: o que o júri realmente valoriza é honestidade intelectual, rigor jornalístico e capacidade de contar histórias que importam. O resto é enfeite.
Agora vai lá e faz uma reportagem que mereça ser lida. O Espírito Santo precisa de jornalismo de verdade. E nós estamos aqui esperando por ele.