A Ousadia de Ser Local na Era do Algoritmo: Por que o Robô Não Vai Cobrir a Câmara de Vereadores

Escrevo isso enquanto olho para a lista de finalistas do nosso 20º Prêmio Capixaba de Jornalismo. São duas décadas de história. Quando começamos, o grande desafio era conseguir uma boa foto em baixa luz ou enviar o material antes do fechamento da edição impressa. Hoje, em 2026, o cenário é outro. O "fechamento" é instantâneo, e o concorrente não é apenas o jornal vizinho, mas um algoritmo treinado para manter a atenção do usuário a qualquer custo, muitas vezes sacrificando a verdade.

Fala-se muito sobre Inteligência Artificial e o domínio das redes sociais. Eu vejo o pânico nos olhos de alguns colegas e a resignação nos de outros. Mas, sinceramente? Acredito que estamos olhando para o problema pelo ângulo errado. A tecnologia mudou a distribuição, sim, mas ela escancarou a necessidade vital daquilo que só nós fazemos: o jornalismo local, humano e checado.

O "Deserto de Notícias" e a Ilusão da Informação

Vivemos uma contradição curiosa no Brasil. Temos acesso infinito a conteúdo, mas sofremos de escassez de jornalismo. É como estar num oceano de água salgada: muita água, mas não dá para beber. As redes sociais nos inundam de opiniões, memes e recortes descontextualizados.

Vou dar um exemplo prático. Se houver um buraco na rua do seu bairro em Vitória ou uma crise na colheita de café no interior do estado, o ChatGPT não vai saber. O algoritmo do Instagram não vai priorizar isso, a menos que vire um meme engraçado. Quem vai lá, suja o sapato de lama, conversa com o morador afetado e cobra a prefeitura? É o repórter local. É o profissional que estamos celebrando aqui.

A Inteligência Artificial é uma ferramenta incrível para resumir textos ou organizar dados, mas ela é péssima em empatia e presença. Ela não tem "cheiro de rua". E é exatamente aí que o jornalismo capixaba e brasileiro precisa fincar sua bandeira.

Redes Sociais: O Palco, Não o Jornalista

Muitos influenciadores digitais fazem um trabalho de comunicação interessante, mas não podemos confundir influência com jornalismo. O compromisso do influenciador é com a audiência e com as marcas que o patrocinam. O compromisso do jornalista deve ser com o fato, doa a quem doer (inclusive aos nossos patrocinadores, se for o caso, mantendo a ética editorial).

Na minha visão, o maior erro que cometemos na última década foi tentar jogar o jogo do algoritmo. Tentamos fazer títulos caça-cliques, tentamos resumir investigações complexas em dancinhas de 15 segundos. Perdemos. O algoritmo sempre muda. O que não muda é a credibilidade.

Veja a diferença básica de abordagem:

Critério Lógica das Redes/IA Jornalismo Local de Qualidade
Objetivo Principal Engajamento e Retenção Informação e Fiscalização
Fonte de Dados O que já existe na internet (raspagem) Investigação primária, entrevistas, documentos
Responsabilidade Baixa (o algoritmo é "neutro") Alta (jurídica e ética)
Foco Geográfico Global ou Viral Hiper-local (O que afeta sua vida direta)

A Inteligência Artificial como Estagiária, não Editora

Não sou ludista. Não estou sugerindo que voltemos à máquina de escrever. A IA generativa, que explodiu nos últimos anos, pode ser uma aliada poderosa nas redações enxutas do Espírito Santo. Ela pode transcrever entrevistas, ajudar a analisar planilhas orçamentárias complexas da administração pública ou sugerir manchetes.

Mas ela alucina. Ela inventa. Se você pedir para uma IA escrever sobre a história política de uma pequena cidade capixaba, ela provavelmente vai misturar datas e nomes. O papel do editor humano tornou-se o de um "curador da verdade". Antes, éramos porteiros da informação (gatekeepers); hoje, somos os verificadores no meio do caos.

"O jornalismo não é mais sobre quem dá a notícia primeiro. O Twitter (ou X) sempre será mais rápido. O jornalismo é sobre quem diz o que aquilo significa e se aquilo é verdade."

O Valor do Selo de Qualidade

É aqui que entra a importância de iniciativas como o nosso Prêmio. Quando olhamos para a lista de finalistas e premiados, não estamos apenas dando um troféu. Estamos dizendo à sociedade: "Isso aqui foi verificado. Isso aqui exigiu esforço. Isso aqui é real."

As empresas que apoiam o jornalismo sério — e aqui cito a realização conjunta de parceiros históricos como a ArcelorMittal, Vale e Fibria — entendem que um ambiente de negócios saudável depende de uma democracia saudável. E não existe democracia sem imprensa livre e economicamente viável. Até mesmo novos players digitais que surgem no mercado precisam entender que associar sua marca à credibilidade jornalística é o único caminho para a longevidade.

O Futuro é Híbrido e Humano

Para os profissionais que estão na final este ano, e para os que virão na próxima edição, meu conselho é direto: usem a tecnologia, mas não se tornem reféns dela. Usem o Instagram para distribuir, mas não pautem suas matérias pelo que está nos trending topics. A melhor pauta quase sempre está onde o celular não pega ou onde ninguém está olhando.

O jornalismo local é a última linha de defesa contra a desinformação em massa. Uma mentira sobre uma vacina ou uma eleição pode circular o mundo em segundos via redes sociais. Mas é o jornalista da cidade que vai ao posto de saúde, que fala com o juiz eleitoral local e que traz a realidade à tona para a comunidade.

Eu acredito que estamos entrando em uma era de "Renascimento da Confiança". As pessoas estão cansadas de serem enganadas por deepfakes e robôs. Elas vão buscar, cada vez mais, a assinatura de um ser humano real, que vive na mesma cidade que elas, e que coloca seu nome e reputação em jogo a cada parágrafo.

Se você é jornalista, seu trabalho nunca foi tão difícil. Mas também nunca foi tão necessário. Confira os trabalhos dos nossos colegas finalistas e inspire-se. Eles estão transformando notícia em história, não apenas gerando conteúdo para alimentar robôs.

Nos vemos na cerimônia.

Sobre o Autor: Editor do Prêmio Capixaba de Jornalismo. O texto reflete a opinião do editor e a missão do prêmio de valorizar a imprensa do Espírito Santo.