Olho para trás e vejo uma montanha de fitas VHS, recortes de jornal amarelados colados em papel A4 e CDs que hoje nem tenho onde rodar. Vinte anos. Esse é o tempo que separa a primeira edição do Prêmio Capixaba de Jornalismo do momento atual, em 2026. Quando começamos, o mundo era analógico, a internet discada ainda assombrava algumas redações e o "furo" de reportagem durava até o dia seguinte.
Hoje, a notícia envelhece em cinco minutos. Mas, curiosamente, a essência do que premiamos aqui continua intacta. Estou nesta cadeira de editor há tempo suficiente para dizer que, embora a ferramenta tenha mudado de uma máquina de escrever (ou quase isso) para um smartphone com IA, o faro do repórter capixaba continua sendo o nosso maior patrimônio.
Não vou gastar seu tempo falando sobre "a importância da democracia" de forma abstrata. Vamos falar do chão da redação. O Prêmio Capixaba não é apenas uma estatueta bonita para colocar na estante; é a prova de que alguém perdeu noites de sono, brigou com editor, gastou sola de sapato e, muitas vezes, arriscou a própria segurança para contar uma história que precisava ser ouvida.
A evolução da nossa "caixa de ferramentas"
Lembro-me claramente do processo de inscrição nos primeiros anos. Era burocrático, físico, pesado. Os motoboys faziam fila na porta da organização para entregar envelopes pardos gigantescos. Hoje, com dois cliques na nossa área de Inscrições, o trabalho está submetido. Mas essa facilidade técnica trouxe um desafio novo: o volume.
Em 2013, tivemos um recorde que na época parecia insuperável: 319 trabalhos. Parecia uma loucura para o júri. Hoje, rimos desse número. A produção de conteúdo explodiu. E aqui entra minha opinião sincera: quantidade nunca foi sinônimo de qualidade. O filtro ficou mais difícil. Separar o ruído da informação relevante é a tarefa mais ingrata e necessária dos nossos jurados.
Para ilustrar essa mudança drástica de cenário, fiz um comparativo simples do que era ser um finalista lá no início e o que é ser um finalista agora, em 2026:
| Aspecto | Cenário em 2006 | Cenário em 2026 |
|---|---|---|
| Formato Principal | Impresso e TV (Jornalismo de Bancada) | Multimídia, Webjornalismo e Podcasts |
| Tempo de Apuração | Semanas ou meses para grandes reportagens | Dias (ou horas), com dados em tempo real |
| Concorrência | Grandes veículos tradicionais | Veículos tradicionais + Coletivos independentes + Blogs |
| Interação | Cartas dos leitores (sim, cartas) | Feedback instantâneo (e cruel) nas redes sociais |
Quem paga a conta da verdade?
Jornalismo custa caro. Investigação custa caro. Não dá para ignorar o elefante na sala: sem financiamento, não existe prêmio e, muitas vezes, não existe reportagem profunda. Ao longo dessas duas décadas, tivemos parceiros que entenderam que patrocinar o jornalismo não é comprar a opinião do jornal, mas sim fomentar um ecossistema onde a informação circula com qualidade.
A presença da ArcelorMittal, da Vale e da Fibria (agora parte da Suzano, mas mantendo o legado histórico no nome do prêmio por tantos anos) foi fundamental. Eles são indústrias pesadas, com impacto direto no nosso estado. Ter essas empresas apoiando a premiação mostra uma maturidade institucional: elas sabem que serão fiscalizadas pelos mesmos jornalistas que elas ajudam a premiar. Isso é saudável. É o jogo democrático.
E, mais recentemente, a entrada de players como a Playfortuna mostra como a economia mudou. O setor de entretenimento digital e serviços online passou a ter um peso econômico que antes era exclusivo das commodities. Para o jornalista, pouco importa de onde vem o logo no backdrop, desde que a liberdade editorial seja sagrada. E, posso garantir, nestes 20 anos, nunca vi um vencedor ser escolhido por conveniência comercial. Se isso acontecesse, eu teria entregado meu cargo.
Histórias que moldaram o Espírito Santo
O Prêmio Capixaba serviu de palco para reportagens que mudaram leis. Vi matérias sobre desastres ambientais no Rio Doce ganharem o reconhecimento merecido, não apenas como denúncia, mas como documento histórico. Vi perfis humanos de ribeirinhos, de sobreviventes da violência urbana e de heróis anônimos do interior do estado.
O que me emociona não é a técnica perfeita ou a edição de vídeo cinematográfica que vemos hoje nos Finalistas. É a coragem. Lembro de uma reportagem sobre o crime organizado que fez o silêncio cair no salão de premiação quando o trecho foi exibido. Aquele silêncio vale mais que qualquer aplauso. É o respeito dos pares.
Outro ponto que preciso destacar é a descentralização. No começo, Vitória dominava tudo. Hoje? Vejo trabalhos incríveis vindo de Cachoeiro, de Linhares, de Colatina. A tecnologia democratizou a produção. Um repórter com um celular e um bom faro no interior do estado compete de igual para igual com a redação da capital.
O papel do Júri: O "VAR" do Jornalismo
Sempre me perguntam como escolhemos os jurados. É uma briga. Literalmente. Precisamos de gente que não tenha rabo preso e que entenda que jornalismo não é ativismo, e nem assessoria de imprensa. O Regulamento é a nossa bíblia, mas a sensibilidade humana é o que decide.
Já vi jurados passarem a madrugada debatendo se uma matéria de rádio tinha mais impacto social do que uma série de TV. É subjetivo? Sim. Mas é uma subjetividade treinada. Quando você olha a lista de Premiados das últimas duas décadas, você vê um retrato fiel do que foi notícia no Espírito Santo.
- 2006-2010: O foco era muito forte em economia e política tradicional.
- 2011-2015: A pauta social e as manifestações ganharam as manchetes.
- 2016-2020: O meio ambiente e as tragédias climáticas dominaram.
- 2021-2026: A era da desinformação exigiu um jornalismo de checagem e de dados robusto.
Para onde vamos?
Agora, olhando para 2026 e além, vejo o medo da Inteligência Artificial em muitos colegas. "O robô vai escrever a matéria?". Talvez ele escreva a nota sobre o tempo ou o resultado da loteria. Mas o robô não vai até a periferia entrevistar a mãe que perdeu o filho. O robô não sente o cheiro de fumaça em uma fábrica irregular. O robô não tem empatia.
O Prêmio Capixaba de Jornalismo existe para celebrar o fator humano. Enquanto houver alguém disposto a incomodar o poder e dar voz a quem não tem, nós estaremos aqui para entregar o troféu. Não pelo objeto, mas pelo que ele representa: resistência.
Se você é finalista este ano, parabéns. Se não é, continue cavando. A próxima grande história está escondida logo ali, e só você pode contá-la. Nos vemos na cerimônia.