Jornalismo de Dados no Espírito Santo: Não é planilha, é história

Estou sentado aqui olhando para a lista de inscritos do nosso 20º Prêmio Capixaba de Jornalismo e uma coisa fica clara: o jogo mudou. Há duas décadas, quando começamos essa jornada com o apoio de gigantes como a Vale e a ArcelorMittal, uma "grande reportagem" geralmente envolvia gastar sola de sapato, gastar saliva no telefone e torcer para uma fonte confidencial entregar um envelope pardo.

Hoje, o envelope pardo é um link de WeTransfer com 5 gigabytes de planilhas .CSV ou um vazamento de banco de dados.

Eu vejo muitos colegas aqui no estado torcendo o nariz para o jornalismo de dados. Acham que é coisa de "nerd" da TI ou que tira a humanidade da notícia. Vou ser bem sincero com você: isso é uma bobagem tremenda. O dado não mata a história humana; ele é o mapa do tesouro que te leva até ela. E aqui no Espírito Santo, temos visto cases que provam que saber mexer no Excel é tão vital quanto saber entrevistar.

O Espírito Santo é uma mina (literalmente e metaforicamente)

Gosto de usar uma analogia que tem tudo a ver com a nossa economia local. Fazer jornalismo de dados é igualzinho ao trabalho das nossas patrocinadoras na mineração. O dado bruto — aquele monte de números do Portal da Transparência do Governo do ES ou do Tribunal de Contas — é o minério de ferro misturado com terra. Não serve para nada no estado natural.

O trabalho do jornalista é refinar isso. É transformar a rocha bruta em aço. É pegar uma planilha ilegível de gastos públicos e transformar em uma manchete que faz o leitor entender que o dinheiro da merenda escolar está indo para o lugar errado.

No Espírito Santo, a evolução tem sido lenta, mas consistente. No início do Prêmio, premiávamos a denúncia baseada no "boca a boca". Hoje, premiamos a denúncia baseada na evidência irrefutável do dado.

O que estamos vendo nas redações capixabas

Não vou citar nomes de veículos específicos para não parecer favoritismo — afinal, sou o editor do prêmio e em breve teremos os finalistas anunciados —, mas observei três tendências claras nos trabalhos que chegam à minha mesa nos últimos anos:

  • Segurança Pública Georreferenciada: Antigamente, dizíamos "a violência aumentou". Hoje, os jornalistas pegam os dados da SESP (Secretaria de Estado da Segurança Pública), cruzam com o IDH dos bairros da Grande Vitória e mostram que a violência não só aumentou, mas que ela tem CEP, cor e classe social. Isso é dado virando denúncia social.
  • Monitoramento Ambiental: Com o trauma do Rio Doce ainda vivo na nossa memória, o jornalismo ambiental no ES deixou de ser apenas fotos de peixes mortos. Agora, vejo repórteres baixando laudos de qualidade da água, criando séries históricas de turbidez e confrontando as empresas e órgãos ambientais com gráficos que não mentem.
  • A farra das diárias e licitações: Esse é o clássico. Robôs que monitoram o Diário Oficial do Estado. Parece chato, mas quando um script alerta que uma prefeitura no interior comprou café por R$ 500 o quilo, isso vira capa de jornal.

A diferença entre "Ter Dados" e "Fazer Jornalismo"

Aqui entra a minha opinião pessoal, e talvez doa em alguns: publicar um gráfico não é jornalismo de dados.

Vejo muita gente pegando o release da assessoria de imprensa, copiando o gráfico bonito que veio no press kit e chamando isso de matéria baseada em dados. Não é. Isso é propaganda ilustrada.

O verdadeiro jornalismo de dados, aquele que queremos ver entre os premiados deste ano, questiona a metodologia. Ele cruza fontes. Se o governo diz que o desemprego caiu, o jornalista de dados vai olhar a base do CAGED, vai olhar a informalidade, vai cruzar com a renda média.

Fiz uma tabela simples para você entender o que eu espero ver nos trabalhos inscritos:

Jornalismo Tradicional (Preguiçoso) Jornalismo de Dados (Vencedor)
"O governo diz que investiu R$ 1 milhão na saúde." "Analisamos 5 mil notas fiscais e descobrimos que apenas 30% do valor foi executado até agora."
Usa o gráfico enviado pela assessoria. Baixa os dados brutos, limpa a sujeira e cria sua própria visualização interativa.
Entrevista apenas o Secretário. O dado pauta a entrevista: "Secretário, os números mostram X, por que o senhor diz Y?"
Foca no caso isolado e anedótico. Usa o caso isolado para ilustrar uma tendência sistêmica revelada pelos números.

O problema da "Transparência Opaca"

Trabalhar com dados no Brasil, e o Espírito Santo não é exceção, é um exercício de paciência. Temos uma Lei de Acesso à Informação (LAI) que completa 15 anos, mas a cultura do sigilo ainda impera.

Eu chamo isso de "Transparência Opaca". Os órgãos públicos disponibilizam os dados? Sim. Mas disponibilizam em PDF escaneado (uma imagem, não texto), com tabelas quebradas, ou em sistemas que caem toda vez que você tenta exportar um relatório grande.

Isso é proposital. Dificultar o acesso ao dado bruto é uma forma de censura moderna. E é por isso que valorizo tanto o jornalista que sabe programar um pouco de Python ou R para "raspar" (fazer scraping) esses dados. Esse profissional está quebrando as barreiras que o poder público ergueu.

Ferramentas que transformam carreiras

Se você é estudante ou um profissional veterano querendo se reinventar para o nosso próximo ciclo de premiação, pare de ter medo da matemática. Você não precisa ser um estatístico.

A maioria dos trabalhos finalistas que vejo aqui no site usa ferramentas que você aprende em uma tarde:

  1. Planilhas (Excel/Google Sheets): O básico bem feito. Tabelas dinâmicas resolvem 80% das pautas investigativas.
  2. Flourish ou Datawrapper: Para fazer aqueles gráficos interativos onde o leitor passa o mouse e vê o detalhe da sua cidade.
  3. SQL: Para entrevistar bancos de dados gigantes que não cabem no Excel.
"O dado, sozinho, é frio. O jornalismo é o fogo que aquece esse dado e o torna digerível para a sociedade."

O futuro do Prêmio Capixaba

Olhando para 2026 e além, a tendência é que a categoria de Jornalismo de Dados deixe de ser um nicho. Em breve, toda reportagem investigativa será, por definição, uma reportagem de dados. Não haverá como separar as duas coisas.

Para as empresas que nos apoiam — Fibria, Vale, ArcelorMittal — isso também é um recado. A sociedade capixaba está mais atenta, mais analítica e menos propensa a aceitar discursos vazios. O jornalismo qualificado eleva o nível do debate público, e isso é bom para todo mundo: para quem produz, para quem patrocina e, principalmente, para quem lê.

Se você tem um trabalho que transformou uma montanha de números em uma história que mudou a vida de alguém no Espírito Santo, inscreva-se. Estamos ansiosos para ver como você transformou minério em notícia.

Confira o regulamento e prepare seu material. Nos vemos na cerimônia de premiação.